Maio Amarelo: agressividade ao volante reflete sobrecarga emocional da sociedade, afirma especialista

No mês em que o movimento Maio Amarelo chama atenção para a redução de acidentes e a preservação da vida, um comportamento cada vez mais comum nas ruas e rodovias acende um alerta entre especialistas: a combinação entre pressa, estresse e agressividade ao volante. Em meio a uma rotina marcada por cobranças, excesso de compromissos e sensação constante de urgência, o trânsito tem se transformado em um ambiente de tensão emocional, impulsividade e risco.

Dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) mostram que o Brasil registrou mais de 72 mil acidentes em rodovias federais em 2025, com mais de 6 mil mortes. O excesso de velocidade continua entre os principais fatores de risco. Para o psicólogo Thiago Lacerda, docente do curso de Psicologia da Estácio, o comportamento agressivo no trânsito é reflexo de uma sociedade emocionalmente sobrecarregada. Segundo ele, a sensação constante de urgência mudou a forma como as pessoas reagem aos contratempos do cotidiano.

“Vivemos numa cultura que valoriza a velocidade acima de quase tudo. A sensação de urgência deixou de ser pontual e passou a ser o estado emocional padrão de grande parte da população. Quando alguém entra no carro já pressionado por prazos, cobranças e preocupações, o trânsito deixa de ser apenas um trajeto e vira mais um obstáculo”, explica.

De acordo com o especialista, esse estado permanente de alerta altera a percepção de tempo e reduz a tolerância à frustração. Semáforos parecem mais demorados, congestionamentos se tornam ofensivos e atitudes comuns de outros motoristas passam a ser interpretadas como provocações pessoais.

“O cérebro sob estresse crônico tem mais dificuldade para avaliar situações com clareza. Isso aumenta a impulsividade e compromete o julgamento. É exatamente aí que o trânsito se torna mais perigoso”, afirma. Thiago Lacerda destaca ainda que o carro frequentemente funciona como uma espécie de “válvula de escape emocional”. Problemas acumulados no trabalho, nas finanças ou nos relacionamentos acabam sendo descarregados durante o trajeto.

“O ambiente do carro cria uma sensação de anonimato. Dentro dele, as pessoas sentem que estão menos expostas ao julgamento social, o que reduz os freios emocionais que normalmente controlam nosso comportamento em público”, observa.

Esse fenômeno, conhecido na psicologia como “desinibição do anonimato”, ajuda a explicar por que reações desproporcionais são tão comuns no trânsito. Uma buzina, uma ultrapassagem ou uma mudança brusca de faixa podem desencadear explosões de raiva que, muitas vezes, têm origem em fatores externos à situação.

A literatura científica também aponta que alguns perfis psicológicos tendem a apresentar maior propensão a comportamentos imprudentes ao volante. Pessoas com baixa tolerância à frustração, traços impulsivos, necessidade excessiva de controle ou perfil competitivo costumam reagir com mais intensidade diante de imprevistos.

Ainda assim, o psicólogo ressalta que ninguém está totalmente imune. “O estresse extremo pode transformar temporariamente qualquer motorista em um agente de risco”, diz. Entre os principais gatilhos emocionais no trânsito estão situações percebidas como injustiça ou desrespeito, como ser fechado, receber uma buzina agressiva, ver alguém furar fila ou avançar o sinal. O cansaço físico e a privação de sono também reduzem significativamente a capacidade de regulação emocional.

“O motorista cansado ou já no limite emocional perde recursos internos para lidar com contratempos simples. Quando existe ainda a sensação de atraso ou medo de perder um compromisso importante, a reação tende a se intensificar”, explica.

Para Thiago Lacerda, pequenas mudanças de hábito podem fazer diferença significativa na relação das pessoas com o trânsito. “Sair mais cedo é uma das medidas mais eficazes. Grande parte da tensão nasce da sensação de atraso. Técnicas de respiração consciente, ouvir músicas mais calmas ou podcasts interessantes também ajudam a regular o estado emocional durante o percurso”, orienta.

Ele acrescenta que, em alguns casos, a agressividade ao volante pode ser sinal de questões emocionais mais profundas, como ansiedade, esgotamento ou dificuldades de controle emocional, que merecem acompanhamento profissional.

“O trânsito funciona como um espelho. Muitas vezes, a forma como reagimos nele revela muito mais sobre nosso estado emocional do que sobre o próprio caminho”, conclui.

*Via Assessoria