Diagnóstico tardio ainda invisibiliza mulheres autistas, aponta especialista

Por décadas, o autismo em mulheres esteve oculto sob diagnósticos imprecisos, estereótipos de comportamento e expectativas sociais rígidas. Meninas que falavam bem, tiravam boas notas e demonstravam empatia muitas vezes eram consideradas “boas demais” para estar no espectro, um mito que, segundo especialistas, ainda mantém milhares de mulheres invisíveis diante da própria história.

A camuflagem social, ou masking, é uma das principais razões para essa invisibilidade. Desde cedo, muitas meninas aprendem a observar e imitar comportamentos para se “encaixar”, ainda que isso custe enorme esforço cognitivo e emocional. De acordo com a psiquiatra Isla Queiroz, pediatra com atuação em neurodesenvolvimento, essa adaptação funciona como uma estratégia de sobrevivência. “As mulheres autistas se tornam excelentes observadoras. Elas estudam expressões, ensaiam respostas, tentam mapear códigos sociais que não são naturais para elas. Essa inteligência social adquirida impressiona por fora, mas desgasta profundamente por dentro”, explica.

O fenômeno é ainda mais complexo quando se soma a chamada dupla excepcionalidade (2e), caracterizada pela combinação de altas habilidades cognitivas com dificuldades típicas do autismo. Esse perfil faz com que meninas consideradas “muito inteligentes”, “maduras” ou “responsáveis” escondam, involuntariamente, sinais de sofrimento sensorial e emocional. “O resultado é um diagnóstico tardio, muitas vezes só após os 25, 30 ou até 40 anos”, destaca.

Impactos emocionais e diagnósticos confundidos

Essa camuflagem constante cobra um alto preço. O esforço para manter a performance social gera sobrecarga sensorial e mental, que pode evoluir para quadros de burnout autista, ansiedade intensa e depressão recorrente. São sinais, segundo especialistas, frequentemente interpretados como transtornos isolados.

“É muito comum que mulheres autistas passem anos tratando ansiedade, depressão ou transtornos alimentares sem melhora consistente. Isso acontece porque a raiz do problema, a sobrecarga gerada pelo autismo não identificado, permanece invisível”, afirma Queiroz.

A similaridade de sintomas com outras condições também dificulta a identificação. A ansiedade social, por exemplo, tem como ponto central o medo de julgamento; no autismo, a dificuldade está na leitura das interações, não na exposição pública em si. “No Transtorno de Personalidade Borderline, as oscilações emocionais estão ligadas ao medo de abandono; no autismo, à sobrecarga sensorial”, explica.

“Além disso, estudos apontam que até 70% das mulheres autistas também apresentam TDAH, o que torna a diferenciação ainda mais complexa”, pontua Álvares. “Há ainda os casos de transtornos alimentares, como anorexia, nos quais a seletividade alimentar decorre muito mais de hipersensibilidade sensorial do que de distorção da autoimagem”, complementa.

O diagnóstico tardio e a descoberta de si

Enquanto meninos costumam ser diagnosticados ainda na infância, meninas e mulheres seguem outro caminho: o do silêncio. Muitas só chegam ao consultório após sucessivas tentativas frustradas de tratamento ou quando, já adultas, percebem que vivem em estado constante de exaustão. “Descobrir-se autista, para muitas mulheres, é a primeira vez que a vida faz sentido. É quando elas conseguem nomear o cansaço social, entender as crises sensoriais e reconhecer que não eram ‘exageradas’ ou ‘difíceis’. Elas apenas estavam tentando sobreviver em um mundo que não foi desenhado para elas”, destaca a psiquiatra.

“O diagnóstico, portanto, não representa limitação, mas alívio. Um reencontro com a própria identidade, após anos de autocrítica e tentativas de se encaixar em padrões impostos externamente”, reforça.

Pesquisas recentes reforçam que o autismo feminino possui um fenótipo próprio, mais sutil, introspectivo e adaptado ao ambiente. Esse perfil, segundo a literatura científica, historicamente passou despercebido porque os critérios diagnósticos foram construídos a partir de estudos majoritariamente masculinos.

“Reconhecer o autismo feminino é reconhecer a diversidade humana. É enxergar que essas mulheres não são menos capazes, mas sim pessoas que percebem o mundo de forma singular e precisam ser compreendidas, não corrigidas”, afirma Queiroz.

“À medida que a ciência amplia o entendimento sobre o espectro, cresce também a urgência de uma abordagem neuroafirmativa, que valorize diferenças neurológicas em vez de patologizá-las”, finaliza.

Sobre o IAN – Inaugurado em 2025 no RioMar Trade Center, em Recife, o IAN é um espaço pioneiro no Brasil dedicado ao acolhimento e cuidado de adolescentes e jovens adultos neurodivergentes de Nível 1 de suporte, além de pessoas LGBTQIAPN+. Fundado pela psicóloga e neurocientista Geórgia Menezes e pela pediatra e psiquiatra Isla Queiroz, o instituto reúne clínica, pesquisa, educação e apoio à funcionalidade em uma abordagem transdisciplinar, centrada na pessoa e baseada em evidências científicas. Com uma equipe qualificada e também composta por profissionais neurodivergentes, o IAN oferece atendimento clínico integrado com práticas neuroafirmativas, formação profissional, apoio familiar e estímulo à autonomia, promovendo ciência, cuidado e cidadania. Mais informações: www.institutoian.com.br e @ianinstituto.

*Via Assessoria