As empresas familiares representam 90% do total de empresas registradas no país, segundo informações do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Com características próprias, vantagens competitivas e desafios particulares, elas convivem com um dado preocupante: estima-se que apenas 30% cheguem à segunda geração e que somente 5% sobrevivam à terceira.
Os números chamam a atenção, mas esse destino não é inevitável. Em muitos casos, as dificuldades que comprometem a continuidade do negócio não estão relacionadas à qualidade dos produtos ou serviços, à falta de mercado ou à capacidade financeira. Surgem, sobretudo, durante a transição do comando, quando questões empresariais se misturam a emoções, disputas entre familiares e expectativas diferentes sobre o futuro.
Ao longo dos 36 anos de atuação da TGI Consultoria junto a famílias empresárias, identificamos alguns comportamentos que costumam dificultar o processo de sucessão. Entre os mais frequentes estão o adiamento da discussão sobre o tema, a falta de envolvimento dos sucessores na construção das soluções, a tentativa de condução do processo sem um plano definido, a falta de paciência diante das dificuldades e a sobreposição dos vínculos afetivos ao pragmatismo necessário às decisões empresariais.
A experiência mostra que começar cedo, aproveitando a disposição e o discernimento dos envolvidos, faz diferença. O tempo, quando bem utilizado, permite amadurecer ideias, preparar pessoas e construir acordos com menos pressão. Também é importante que as soluções sejam discutidas com quem será diretamente afetado por elas. Isso não significa que todos terão de concordar com tudo, mas que a participação dos envolvidos tende a facilitar a compreensão e a implementação das decisões. Outro ponto fundamental é contar com um plano de sucessão, preferencialmente com horizonte de médio prazo — cinco anos, por exemplo. Esse planejamento ajuda a orientar as próximas etapas, preparar os futuros responsáveis e estabelecer referências para lidar com os conflitos que podem surgir ao longo do caminho.
E vale um alerta: a existência de conflitos não significa, necessariamente, que o processo esteja dando errado. Divergências são naturais quando há interesses, expectativas e histórias de vida diferentes. O desafio é saber lidar com elas sem comprometer as relações familiares nem os interesses do negócio. Por isso, paciência é indispensável. Soluções apressadas, apresentadas como definitivas, podem até aliviar uma tensão momentânea, mas nem sempre resolvem os problemas que estão na origem dos conflitos. É preciso ter disposição para rever caminhos, ajustar decisões e encontrar alternativas. Nesse contexto, uma boa dose de pragmatismo pode ser decisiva para preservar tanto o patrimônio quanto a continuidade da empresa.
Conduzir a sucessão exige coragem e determinação. Pode ser necessário rever papéis, redistribuir responsabilidades, estabelecer novas estruturas de decisão e aperfeiçoar os mecanismos de governança. Não há uma fórmula única: as soluções precisam ser construídas de acordo com as características de cada empresa e de cada família empresária. O importante é que, mesmo diante de diferenças de opinião e interesses individuais, a família consiga construir um entendimento sobre o futuro do negócio e atuar para preservar e fortalecer sua competitividade.
As estatísticas nem sempre são favoráveis, mas há uma lição importante na trajetória dos empreendedores bem-sucedidos: muitas vezes, eles encontram oportunidades onde outros não veem saídas e vencem condições desafiadoras. Na sucessão familiar, essa capacidade também faz diferença.

Fábio Menezes, consultor empresarial e sócio da TGI Consultoria
*Via Assessoria