Com a chegada das altas temperaturas, planejamento urbano passa a incorporar estratégias para reduzir os efeitos do calor; no Recife, projetos da ARIES mostram como soluções baseadas na natureza podem fazer parte dessa adaptação
A chegada da primavera, em setembro, marca também o início de um período de temperaturas mais elevadas em diferentes partes do país. No Nordeste, onde o calor já faz parte da rotina durante boa parte do ano, a proximidade da estação coloca em evidência uma questão que vem ganhando espaço no planejamento urbano: como as cidades podem se preparar para conviver com temperaturas mais altas? O debate sobre calor urbano considera não apenas as condições meteorológicas, mas também a maneira como os espaços são ocupados.
A concentração de edificações, asfalto e concreto, a impermeabilização do solo e a presença ou ausência de vegetação podem interferir nas condições térmicas de diferentes áreas de uma mesma cidade. Em municípios populosos, esse cenário ganha outra dimensão porque milhões de pessoas estão diariamente expostas a essas condições durante deslocamentos, atividades de trabalho e uso dos espaços públicos.
Para Mariana Pontes, presidente da Agência Recife para Inovação e Estratégia (ARIES), o tema faz parte de uma discussão mais ampla sobre adaptação das cidades às mudanças climáticas. A organização atua no planejamento estratégico de longo prazo e no desenvolvimento de projetos que buscam testar novas formas de responder aos desafios urbanos. Entre as frentes de atuação estão sustentabilidade, inovação, planejamento urbano e Soluções Baseadas na Natureza (SbN).
“Quando pensamos em adaptação climática, precisamos olhar para a cidade de forma integrada”, explica Mariana. Vegetação, solo e água também são elementos de infraestrutura urbana, com funções que ajudam a regular a temperatura, ampliar a permeabilidade do solo e reduzir o escoamento superficial. “Recife reúne características que tornam o planejamento para o calor especialmente importante. Cidade costeira, densamente urbanizada e marcada pela presença de áreas impermeabilizadas, a capital pernambucana deve sempre considerar como as escolhas de ocupação do território influenciam as condições térmicas dos espaços e a exposição da população ao calor”, detalha Mariana.
Esta não é uma condição exclusiva, a discussão se repete em diferentes cidades brasileiras que enfrentam temperaturas elevadas e crescimento urbano. Uma das alternativas que vêm sendo cada vez mais estudada e testada é justamente a utilização de Soluções Baseadas na Natureza. A proposta é utilizar processos e elementos naturais para responder a problemas urbanos, combinando funções ambientais, sociais e de infraestrutura. Arborização, áreas verdes, recuperação de corpos d’água, espaços permeáveis e sistemas naturais de tratamento estão entre as possibilidades.
Com atuação forte no Recife, a ARIES já desenvolve experiências nessa área. Um dos exemplos são os Jardins Filtrantes, instalados no Parque do Caiara, na Iputinga. O projeto utiliza plantas para filtrar a água do Riacho do Cavouco e requalificou uma área de aproximadamente 7 mil metros quadrados. Executada pela ARIES por meio do projeto CITinova, sob investimento internacional do Global Environment Facility (Fundo Global para o Meio Ambiente – GEF) a iniciativa une uma solução baseada na natureza e paisagismo em um espaço de convivência e educação ambiental. Outro projeto desenvolvido pela organização é o SbN em Cajueiro, na Zona Norte da capital pernambucana, que integra esse campo de experimentação de agrupamentos (ou arranjos) de soluções verdes para os desafios locais.
O Projeto SbN Cajueiro responde ao Edital de Chamamento Público Periferias Verdes Resilientes, por intermédio do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e Ministério das Cidades. A lógica dessas iniciativas é testar possibilidades no território, investir no protagonismo social e produzir conhecimento que contribua para o planejamento de cidades mais preparadas para cenários diferentes e desafiadores que já se apresentam como realidade.
*Via Assessoria