Por que Ainda Voltamos a Ítaca? O Sucesso de Nolan e a Atualidade dos Clássicos

Quase três mil anos depois de sua origem, A Odisseia voltou ao centro da cultura contemporânea. A adaptação dirigida por Christopher Nolan arrecadou US$ 264,1 milhões mundialmente em seu primeiro fim de semana e ultrapassou US$ 911 milhões em bilheteria global nas três primeiras semanas em cartaz.  A repercussão do filme também chama atenção para a permanência da obra atribuída a Homero, que nasceu de uma tradição oral e é convencionalmente datada entre o fim do século VIII e o início do século VII a.C.

 

Para Alyne Virino Ricarte, historiadora, jornalista, mestre em História e Culturas pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), professora da área de Humanas e Comunicação e gerente acadêmica EaD da Wyden Nacional, a atualidade da narrativa está justamente nos conflitos humanos que ela apresenta.  “A história não é uma jornada qualquer de volta para casa. Ela virou um conceito, um ícone. Representa tudo em nós quando queremos e precisamos voltar à nossa identidade, ao que somos”, afirma. A história acompanha Odisseu, também conhecido como Ulisses, em sua tentativa de retornar a Ítaca e reencontrar sua família após a Guerra de Troia. No percurso, enfrenta monstros, deuses, tentações e as consequências de suas próprias escolhas.

 

Apesar do cenário mitológico, temas como saudade, pertencimento, identidade, ambição, amadurecimento e conflitos familiares continuam reconhecíveis para o público atual. A identificação também passa pelas imperfeições do protagonista. Odisseu é corajoso e inteligente, mas também erra, age por impulso e precisa lidar com os resultados de suas decisões. “O espectador acompanha o herói não porque seja tão extraordinário quanto ele, mas porque reconhece nele uma versão ampliada de suas próprias inseguranças”, explica Alyne.

 

Um clássico sob novos olhares

 

 

A versão de Christopher Nolan representa mais uma releitura de uma narrativa que atravessou séculos e diferentes linguagens. Ao adaptar a obra para o cinema, o diretor estabelece um diálogo entre o texto antigo e as questões do presente. As escolhas de uma adaptação — o que preservar, modificar ou retirar — também revelam como cada época interpreta o passado. No caso de Nolan, a experiência visual ganha destaque: A Odisseia foi o primeiro longa-metragem filmado integralmente com câmeras IMAX.

 

Para Alyne, a mitologia também pode ser compreendida para além de deuses, heróis e criaturas fantásticas. “Ela representa inúmeros aspectos humanos que só uma história bem contada pode trazer, inclusive questões cotidianas e de superação espiritual”, afirma. A professora ressalta, porém, que a Odisseia não deve ser entendida como um retrato completo da sociedade grega antiga, formada por diferentes cidades, períodos e tradições. A obra oferece, ainda assim, elementos para compreender valores e conflitos daquele contexto e refletir sobre questões que permanecem presentes.

 

Do cinema para a sala de aula

 

O sucesso do filme pode ser aproveitado também como ponto de partida para aproximar estudantes de conteúdos de História, Literatura, Filosofia e Comunicação. A comparação entre a produção cinematográfica e a obra original permite discutir o que foi preservado, alterado ou ressignificado. “O passado não chega até nós de maneira neutra. Cada época reconstrói o passado segundo suas próprias preocupações”, resume Alyne.

 

Mais do que apresentar uma história antiga, A Odisseia permite discutir como narrativas são transformadas ao longo do tempo e por que determinadas questões continuam despertando identificação. Quase três mil anos depois, a jornada de Odisseu permanece atual porque as tecnologias e os formatos mudaram, mas questões como identidade, pertencimento, escolhas, perdas e transformação continuam fazendo parte da experiência humana.

 

*Via Assessoria