O remédio invisível: por que o acolhimento social é pilar para a cura do câncer infantil

O sucesso no tratamento do câncer infantojuvenil vai muito além dos protocolos médicos e das precisas sessões de quimioterapia. Para crianças e adolescentes que enfrentam a complexidade da doença, a existência de uma rede de apoio sólida e a presença constante da família não são apenas complementos humanitários: são fatores determinantes para a própria sobrevivência.

O diagnóstico de câncer infantil desestrutura instantaneamente a rotina de qualquer lar. Quando o paciente reside no interior, longe dos grandes centros de referência médica, o desafio se multiplica exponencialmente. A batalha contra a doença passa a exigir muito mais do que resiliência emocional; demanda logística, recursos financeiros e uma infraestrutura básica que a maioria das famílias vulneráveis simplesmente não possui.

Há quatro décadas, em 1985, quando o Núcleo de Apoio à Criança com Câncer (NACC) nasceu no Recife, o cenário era alarmante: cerca de 30% dos pacientes vindos do interior de Pernambuco desistiam do tratamento. Não por falta de medicamentos ou por imperícia médica, mas por fome, por não terem onde dormir na capital ou por não possuírem o dinheiro da passagem para retornar às consultas. A vulnerabilidade social operava como uma sentença tão letal quanto a própria patologia.

Hoje, ao alcançarmos o ano de 2026 com mais de 8.600 usuários atendidos ao longo de nossa história, celebramos uma estatística que transforma a saúde pública de Pernambuco: esse índice de abandono foi reduzido para menos de 1%. Essa vitória não decorre de uma nova droga milagrosa, mas sim da consolidação do acolhimento integral como política essencial de cuidado.

Garantir que a criança lute com dignidade significa oferecer-lhe um ambiente seguro. Isso se traduz em hospedagem acolhedora, alimentação balanceada para o paciente e seu acompanhante, transporte diário aos hospitais parceiros e suporte multiprofissional, com fisioterapia, nutrição, odontologia e serviço social. Significa também manter vivas a escolarização e o apoio psicossocial, assegurando que o pequeno paciente preserve o máximo possível de sua infância.

Atualmente, cerca de 60% dos pacientes pernambucanos acolhidos vêm do interior do estado, além de centenas de outros que cruzam fronteiras vindos de diversas regiões do país. Para todos eles, a casa de apoio funciona como o principal elo com a chance de cura. O câncer não escolhe CEP, raça ou classe social, e o direito ao tratamento integral também não deveria escolher.

Contudo, o maior desafio diário de uma instituição filantrópica como o NACC é garantir a sua própria sustentabilidade. O equilíbrio financeiro de uma estrutura que abriga e alimenta mais de uma centena de pessoas diariamente depende, de ponta a ponta, da sensibilidade e da solidariedade da sociedade civil e do setor privado. Manter essas portas abertas é um dever coletivo.

Investir no suporte social e logístico ao paciente oncológico não é filantropia secundária; é parte intrínseca do sucesso terapêutico.

Arli Pedrosa, Diretora-presidente do Núcleo de Apoio à Criança com Câncer

*Via Assessoria