Ainda desconhecidas de boa parte do consumidor brasileiro, uvas como a romena Busuioaca de Bohotin, a georgiana Alexandrouli e as italianas Soreli e Muscaris devem chegar às taças do público pelo trabalho de pesquisa e inovação da Cooperativa Vinícola Garibaldi. Exemplares das castas que crescem no vinhedo experimental mantido na Serra Gaúcha serão apresentados na masterclass “Os Vinhos do Amanhã: Novas Cultivares e Oportunidades para a Vitivinicultura Brasileira na Experiência da Cooperativa Vinícola Garibaldi”. O encontro ocorre amanhã (7 de outubro), a partir das 14h, no Fórum 1 do Expo Center Norte, dentro da programação da ProWine São Paulo.
Algumas ainda em fase de microvinificação (lotes reduzidos que permitem avaliar o comportamento de cada variedade antes da tomada de decisões mercadológicas), as bebidas são resultado dos estudos realizados no Vinhedo Experimental que a Cooperativa Vinícola Garibaldi mantém desde 2019, em um terreno de aproximadamente um hectare em Santa Tereza (RS), propriedade de um de seus cooperados. Ali crescem hoje perto de 60 cultivares trazidas da Hungria, da República Tcheca, da Romênia, da Ucrânia, da Grécia, da Geórgia, de Portugal, da Espanha e da Itália, boa parte delas sem histórico de plantio no país.
Inicialmente, o mapeamento contemplou uvas tradicionais do portfólio da Cooperativa Vinícola Garibaldi, como Chardonnay, Pinot Noir, Prosecco e Trebbiano. Com o avanço dos trabalhos, a área passou a receber também variedades de maior resistência e tolerância a enfermidades, adquiridas junto ao viveiro parceiro na Itália. Durante todo o ciclo, a equipe técnica observa como cada planta reage ao clima da região, quanto produz, em que momento amadurece e como é sua resistência quanto às principais doenças que atacam a videira. Uma das apostas são as PIWI, sigla alemã que identifica uvas mais tolerantes a fungos e que, por isso, pedem menos intervenções no vinhedo. As que se saem bem no campo seguem para a vinícola e viram vinho em pequena escala. Nessa fase, o olhar se volta para acidez, estrutura, perfil aromático e chances no mercado, sempre em comparação com as castas já consolidadas no portfólio. Em 2026, 22 cultivares avançaram para a etapa de microvinificações e destas, 4 foram selecionadas para essa masterclass exclusiva e inédita, na ProWine. Outros 2 vinhos que serão degustados já são comerciais e lançados com exclusividade nos últimos 3 anos.
O projeto já gera desdobramentos no mercado. Do vinhedo experimental saíram dois vinhos exóticos e exclusivos: o Garibaldi In Veritas Pálava, feito com uma uva de origem tcheca, lançado em 2024 e premiado com ouro no Concours Mondial de Bruxelles de 2025, e o Garibaldi In Veritas Irsai Oliver, de cultivar húngara, que neste ano recebeu ouro no Bacchus, na Espanha. A mesma pesquisa deu origem ao espumante Garibaldi Viognier, vencedor de ouro no Zarcillo International Wine Awards em 2025.
A próxima variedade a integrar a linha comercial é a Busuioaca de Bohotin, prevista para chegar ao mercado em janeiro de 2027, ampliando a linha In Veritas, que já traz rótulos elaborados com uvas oriundas da Hungria e da República Tcheca. Parente próxima do Moscato, mas de película tinta, a uva romena resulta em um rosé delicado. “É um vinho aromático, que lembra os aromas terpênicos do Moscato, mas com um leve vegetal que remete a manjericão, um descritor muito presente nessa variedade”, explica o enólogo da Cooperativa Vinícola Garibaldi, Ricardo Morari.
Já as variedades Soreli e Muscaris exemplificam o viés técnico voltado à sustentabilidade no campo. As duas brancas pertencem ao grupo das PIWI e foram desenvolvidas pelo viveiro italiano Rauscedo. A primeira tem perfil aromático de pêssego bem maduro, flores e um leve mineral, enquanto a segunda guarda muitas semelhanças com o Moscato Bianco. “Com a Muscaris, o objetivo era conseguir uma variedade aromática, com características moscatéis e maior resistência a doenças. Isso tem um apelo de sustentabilidade, porque reduz o número de tratamentos fitossanitários, e, também, melhora a produtividade no campo, o que acaba diminuindo o custo”, detalha Morari.
A Alexandrouli atende a outro conceito técnico. A uva georgiana não está entre as resistentes, mas é uma casta antiga que vem sendo resgatada e produz tintos leves, de cor média a baixa, a exemplo do Pinot Noir. Nas microvinificações, a Cooperativa Vinícola Garibaldi conduz a variedade para um clarete pouco intenso na cor, fresco, frutado e de baixo teor alcoólico, perfil que acompanha a procura crescente, no mundo todo, por tintos menos encorpados e com menos álcool e estrutura.
Para a Cooperativa Vinícola Garibaldi, que completa 95 anos em 2026 e reúne mais de 460 cooperados, a iniciativa do vinhedo experimental é um movimento que amplia as possibilidades de rentabilidade ao produtor e incentiva, também, a sucessão familiar na viticultura. “Esse trabalho, acima de tudo, propõe uma reflexão sobre o que essas cultivares podem acrescentar à vitivinicultura brasileira nos próximos anos”, diz Morari.
*Via Assessoria