
Com tamanha dimensão, a comida servida nos restaurantes recifenses não se limitou ao tradicional, ganhou ares de modernidade, contudo, nunca abandonou o seu lado provinciano. Eis o desafio dos novos chefs: conseguir reunir em um mesmo prato a vanguarda e a tradição. Eles têm conseguido, com muito sucesso, diga-se de passagem. A partir de hoje, você vai acompanhar uma série de reportagens sobre a Cozinha Contemporânea em Recife. Como funciona essa cozinha moderna e inventiva em uma cidade de hábitos alimentares tão tradicionais.

A ideia de utilização do que é da terra em novas possibilidades de apresentação, antes vista como cafona, a partir desse momento, ganhava adeptos em todo o país, e não tardou a chegar às plagas pernambucanas. O ano de 1992 foi um divisor de águas na gastronomia de Pernambuco, o chef César Santos abria, na histórica Olinda, o Oficina do Sabor. Um restaurante de comida regional com um apelo diferenciado: a revalorização dos prosaicos ingredientes dos mercados recifenses, através de misturas nunca antes combinadas. As frutas que só serviam para sucos e doces passaram a propiciar, também, molhos e recheios para carnes e frutos do mar. “Percebi que a comida regional estava cansada, então enxuguei o excesso de condimentos, e passei a valorizar o produto da terra de uma forma diferente”, explica César Santos.


Van der Ley ainda define essa gastronomia como “criativa, ousada e inventiva”, para isso, ela reúne elementos nunca antes pensados em uma cozinha de tradição. É necessariamente híbrida, na medida que funde ingredientes de qualquer lugar do mundo em um novo conceito. E para ser consagrada deve ter um resultado harmônico. “Não é simplesmente pegar um queijo do sertão, colocar um molho de mostarda francesa, aromatizar com uma erva africana, e dizer que é contemporâneo. O prato deve ter harmonia”, esclarece a jornalista gastronômica, Flávia de Gusmão. Seguir os critérios de erudição, antecipação teórica, hibridismo é a prova dos nove de um chef, mas é com a harmonização final que ele vai provar que além de ser um grande pensador da comida, também é um pesquisador de ingredientes, e tem uma grande capacidade técnica para manipular elementos dissonantes, obtendo assim, um resultado harmonioso.
Por Eduardo Sena – Colunista da Revista Click REC
