Já se foi o tempo de ouvir sobre o El Niño ou La Niña e este assunto ficar restrito ao aspecto geográfico ou ao do meio ambiente. Todos temos escutado sobre o super El Niño que já está em curso e seu impacto no mundo. Aqui no Brasil, já começamos a ter a expectativa de uma super seca no Norte e no nosso Nordeste, e de um volume de chuvas maior do que o normal no Sul, tudo isso em função de um super aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial
Como consequência teremos provavelmente um grande impacto nos alimentos, produtos que dependem fortemente do clima e das condições naturais. Com isto, teremos uma consequencia na inflação, preveem os economistas ao fazer esta rápida correlação. Mas não deverá se restringir aos alimentos, o que por si só já é muito alarmante, mas teremos mudanças no nível dos rios… Isto limitará o escoamento do nosso segundo maior polo de produção de produtos industriais: o Polo de Manaus, que depende do Rio Amazonas para distribuir boa parte de seus produtos. Com o nível das águas mais baixo, teremos restrições de embarcações, e de peso de suas cargas, limitando sensivelmente sua capacidade. Então, teremos impacto em várias outras áreas de produção e não apenas ao agro-negócio.
O impacto na produção brasileira trará efeitos para todo o planeta, uma vez que sabemos que o Brasil é tido como o “celeiro” do mundo, fornecendo boa parte dos alimentos que são consumidos por dezenas de países. Mas o super El Niño não abalará apenas a economia do Brasil. É preciso sempre analisar não só a produção de cada nação, mas também a logística mundial. Se tivermos este impacto forte no Norte do país, então também teremos mudanças em outros países da América Central, e aqui cabe falar sobre o Canal do Panamá!
Esta “Ponte para o mundo”, como o Panamá se auto-intitula, sofrerá também consequências, na verdade já as sente. Começam a ser anunciadas diminuições significativas de passagem de navios pelo Canal, em função da diminuição de suas aguas. Não apenas diminuição de quantidade de navios, mas de seus tamanhos, uma vez que o nível do Canal já diminuiu e tende a diminuir ainda mais. Neste ponto, a repercussão desse fenômeno natural anormal será mundial. E o olhar não deve ser apenas para quem usa esta maravilhosa obra de engenharia, mas inclusive para aqueles que nem de longe passam por ela. A lógica é: teremos que achar outros caminhos, e os outros caminhos passarão a ter mais demanda… E pela lógica econômica, com mais demanda, se não houver maior oferta, o preço sobe, Portanto, há de esperar que o preço do frete internacional aumente em todo o mundo, ou em quase todo o mundo. As rotas pelo Índico aumentarão, a opção de dar a volta na América do Sul, pela Terra do Fogo, passará a ser uma alternativa, não ideal, mas necessária.
Só que tudo isto acontece ou começa a acontecer em um dos piores momentos do comércio internacional: mês de Setembro e de Outubro, meses que são de preparação para o “Black Friday” e para o Natal, quando costumeiramente os fretes já encarecem, o comércio exterior está ainda mais tenso. E nacionalmente falando, em um péssimo momento também, momento de eleição, de extrema bipolaridade, em que alguns pretenderão que tudo ficou caro por conta do fenômeno natural El Niño, como se já não estivéssemos sentindo no bolso o preço da inflação real e da desorganização econômica pela qual estamos passando. Para alguns, talvez, tenhamos achado um culpado!
Por Gustavo Delgado – Consultor de comércio exterior e de internacionalização de empresas, diretor de inovação da ABDAEX e coordenador do curso de Relações Internacionais do Centro Universitário UniFBV Wyden
*Via Assessoria