Não há adaptação climática sem justiça urbana

A mudança climática deixou de ser uma preocupação distante, um problema que ainda iremos enfrentar. Cada vez mais, ela deixa de ser um assunto para se pensar e se torna uma realidade que vivemos. Está nas enchentes que se repetem a cada chuva forte, nas ondas de calor que se intensificam e numa série de impactos que já fazem parte do cotidiano de cidades como o Recife.

 

O Recife ocupa uma posição especialmente delicada nesse cenário. A cidade nasceu entre rios, manguezais e o mar. Essa característica, que molda sua identidade e sua paisagem, também amplia sua exposição aos efeitos da elevação do nível do mar e dos eventos climáticos extremos. Com altitude média de apenas quatro metros acima do nível do mar, a capital pernambucana convive com uma combinação de fatores que favorece os alagamentos: três rios que deságuam na costa, a influência das marés e chuvas cada vez mais intensas. Não à toa, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) aponta a cidade como a capital brasileira mais ameaçada pela elevação do nível do mar.

 

Mas essa posição delicada não se explica apenas pela geografia. Ela é também social: boa parte das famílias de menor renda vive justamente nas áreas mais expostas (encostas, margens de canal, palafitas), de modo que os mesmos eventos atingem primeiro, e com mais força, quem tem menos recursos para se proteger e se recuperar. E isso não é obra do acaso, nem fatalidade da natureza. É o resultado de uma dívida histórica: ao longo de décadas, enquanto as áreas planas e bem servidas de infraestrutura eram destinadas a quem podia pagar por elas, as famílias de menor renda foram ficando com o que sobrava. Ninguém escolhe morar em área de risco; mora ali quem não teve outra opção. Por isso, tanto no Recife como em tantas cidades brasileiras, discutir adaptação climática é inseparável de discutir moradia e justiça urbana.

 

A desigualdade, porém, é apenas uma das faces do problema. A outra está na relação que a cidade construiu com as próprias águas. Há uma frase do filme argentino Medianeras que resume bem o que aconteceu por aqui: “o que esperar de uma cidade que dá as costas para o seu rio?”. Ao longo de sua história, foi mais ou menos isso que o Recife fez. À medida que a ocupação urbana avançava, mangues, várzeas e áreas alagadas, que funcionavam como esponjas naturais, capazes de absorver a chuva, foram sendo aterrados, canalizados e cobertos por bairros, avenidas e concreto. A questão, hoje, é o que fazemos diante disso: estamos, de fato, criando espaços para a água na cidade, ou seguimos tratando os rios como um problema a ser afastado?

 

O caminho não está em construir mais, e sim em devolver à cidade aquilo que ela tinha antes de se cobrir de concreto. Em vez de combater a água com muros e canais, a cidade pode voltar a trabalhar a favor dos processos que a natureza já realizava sozinha. É o que se chama de Soluções Baseadas na Natureza – se aliar às estratégias e funções da natureza, em vez de tentar dominá-la. Em Recife, os manguezais exercem funções fundamentais na proteção da costa, na filtragem da água e na manutenção da biodiversidade. Preservá-los significa fortalecer uma infraestrutura natural que já trabalha a favor da cidade. A arborização também desempenha papel estratégico: árvores ajudam a reduzir temperaturas, absorvem parte da água da chuva e tornam os espaços urbanos mais saudáveis. Da mesma forma, parques e áreas verdes podem funcionar como verdadeiras esponjas, armazenando água durante períodos de chuva intensa e reduzindo o risco de alagamentos.

 

Esse caminho, é importante dizer, não é uma promessa distante: já existem iniciativas que apontam para ele. Projetos que buscam recuperar a relação da cidade com seus rios, ampliar áreas verdes e incorporar soluções ambientais ao planejamento urbano mostram que é possível construir um Recife mais resiliente. Experiências brasileiras e internacionais demonstram que adaptação climática não é apenas uma necessidade futura, mas uma agenda que precisa ser implementada agora. E o desafio maior talvez não seja técnico (a competência e as soluções já existem) e sim político: transformar a adaptação em prioridade coletiva, num tempo em que os efeitos do clima avançam mais rápido do que as decisões.

 

Compreender que desenvolvimento urbano e natureza não são forças opostas é essencial para o futuro das cidades. No caso do Recife, isso significa reconhecer o valor dos rios, dos manguezais e das áreas verdes, e investir cada vez mais no enfrentamento às desigualdades, uma vez que elas ampliam os riscos e não há cidade preparada para o clima que siga sendo desigual. Adaptar-se à mudança do clima não é apenas valorizar e proteger este ou aquele território; é construir uma cidade mais justa, mais preparada e mais humana como um todo, para quem vive nela hoje e para quem vier depois.

Inês Domingues é arquiteta e urbanista e analista de projetos da Agência Recife para Inovação e Estratégia (ARIES)

*Via Assessoria