Muitos me têm perguntado sobre as possíveis consequências da eventual prisão de Nicolás Maduro para o comércio exterior de Pernambuco e do Brasil, e o que se pode esperar da economia diante desse cenário. Participei, inclusive, de entrevistas em rádio e jornal tratando desse tema. Naturalmente, as dúvidas extrapolam o campo comercial e alcançam áreas como energia, fluxo migratório, turismo e investimentos estrangeiros. Não sou economista de formação, embora tenha mestrado na área, mas posso analisar com maior propriedade o comércio internacional, minha área de atuação profissional há mais de 25 anos. Nos demais temas, procuro contribuir como um observador atento e interessado.
No curto prazo, uma prisão de Maduro tende a gerar impactos relevantes no comércio bilateral Brasil–Venezuela, sobretudo em razão da instabilidade institucional típica de processos de transição política, seja por continuidade via vice-presidência, seja por um governo de transição com apoio externo ou seja pela ascensão da oposição. Ainda assim, do ponto de vista estrutural, o efeito sobre o comércio exterior brasileiro tende a ser limitado. A Venezuela ocupa atualmente a 52ª posição como destino das exportações brasileiras e a 61ª como origem das importações, o que reduz o peso macroeconômico dessa relação.
Para Pernambuco, o cenário é mais específico. Em 2025, o estado exportou cerca de US$ 38 milhões para a Venezuela, que figurou como o 16º destino das exportações pernambucanas, enquanto as importações provenientes daquele país não chegaram a US$ 400 mil. Os riscos concentram-se em setores específicos — especialmente açúcar, polietileno e automóveis, que juntos representam quase 90% do valor exportado — de modo que eventuais rupturas políticas podem afetar contratos, pagamentos e a continuidade das operações. Já pelo lado das importações, praticamente restritas a carbono, não se observa risco relevante para as cadeias produtivas locais.
No campo energético, os efeitos de uma crise política na Venezuela são mais localizados. Historicamente, estados da Região Norte, em especial Roraima, apresentaram dependência da energia elétrica importada da Venezuela, em função de limitações de infraestrutura e da ausência, por anos, de conexão plena ao Sistema Interligado Nacional.
Uma eventual estabilização política também pode estimular, de forma gradual, o retorno de cidadãos venezuelanos ao seu país, desde que haja melhora efetiva das condições econômicas e de segurança. O Brasil, embora não tenha sido o principal destino da migração venezuelana na América do Sul, recebeu um contingente razoável, distribuído nacionalmente por políticas de interiorização, Pernambuco foi um destes importantes destinos. Parte dessa população se integrou ao mercado de trabalho, atuando em setores como comércio, serviços, construção civil e agropecuária. Um fluxo de retorno pode gerar impactos localizados, reduzindo a oferta de mão de obra em alguns segmentos e, ao mesmo tempo, aliviando pressões sobre serviços públicos como saúde e educação.
No turismo e nos investimentos estrangeiros, a Venezuela não representa fator de relevância direta para Pernambuco nem para o Nordeste. Eventuais impactos seriam indiretos e dependentes de um longo processo de recuperação institucional, econômica e de imagem internacional, o que torna improvável qualquer efeito significativo no curto ou médio prazo.
Por fim, o impacto potencialmente mais relevante ocorre de forma indireta e no transporte marítimo. Instabilidades políticas afetam a produção e a oferta de petróleo, insumo central para o custo dos combustíveis e do frete internacional. Oscilações na produção venezuelana podem influenciar o preço do combustível marítimo, impactando armadores, exportadores e importadores. Ainda assim, esses efeitos tendem a ser moderados, uma vez que o mercado global de petróleo é fortemente regulado por grandes produtores, reduzindo a probabilidade de choques abruptos. Trata-se, portanto, de um fator de atenção estratégica, mas sem expectativa de grandes disrupções para o Brasil. Portanto, estruturalmente Pernambuco sofrerá mais impacto do que o próprio Brasil nesta instabilidade da Venezuela, especialmente na nossa exportação.
Gustavo Delgado é Consultor de comércio exterior de internacionalização de empresas e mestre em economia, Diretor de inovação da ABDAEX, e coordenador dos cursos de Gestão da UNIFBV
*Via Assessoria