Placemaking reinventa o futuro das cidades ao colocar as pessoas no centro

Não é exagero dizer que as cidades vivem um momento de encruzilhada. Frente a dilemas urgentes, como mobilidade precária, insegurança, exclusão social e impacto ambiental, o desafio não é apenas encontrar respostas, mas descobrir como buscá-las. Nesse cenário, o placemaking desponta como uma prática que vai além da transformação estética dos espaços urbanos: ele oferece um método de antecipação de futuros possíveis, um campo de testes para soluções antes que se tornem políticas públicas definitivas.

Muito mais que “embelezar” praças ou colorir calçadas, o placemaking propõe uma mudança de paradigma. Ele parte da premissa de que o espaço urbano precisa ser desenhado com e para as pessoas, respeitando o contexto local, ativando vocações esquecidas e promovendo encontros. Segundo o Project for Public Spaces, espaços que passam por esse tipo de intervenção chegam a registrar aumento de até 50% no uso por parte da população e uma redução de 30% nos índices de criminalidade. São números que mostram como soluções aparentemente simples, como mobiliário urbano temporário, pinturas no chão ou cobertura de áreas de convivência, que podem ativar a vida em comum.

Essa potência do placemaking tem se revelado em diversas oficinas colaborativas que vêm ganhando espaço em centros urbanos no Brasil e no mundo. Nessas experiências, estudantes, pesquisadores e cidadãos são convidados a cocriar soluções para desafios reais do espaço público, muitas vezes utilizando recursos como inteligência artificial, design participativo e intervenções temporárias.

A proposta é simples, mas poderosa: reunir diferentes olhares em torno de uma mesma área urbana, seja ela marcada por insegurança, baixa mobilidade ou desvalorização simbólica, e pensar possibilidades concretas de transformação. Esses laboratórios de cidade permitem testar ideias em pequena escala, com atenção à preservação histórico-cultural, à segurança das populações mais vulneráveis e à ativação dos espaços em diferentes horários.

Ao permitir que a população participe da criação e da experimentação de soluções urbanas, o placemaking transforma o “usuário” em protagonista. É um processo que educa para o futuro por meio do presente, ou seja, aprender fazendo, imaginando e agindo. De acordo com o relatório “Global Public Space Toolkit”, da ONU-Habitat, abordagens que incorporam essa escuta ativa geram maior sustentabilidade e aceitação social, pois traduzem desejos reais da comunidade em intervenções tangíveis. Trata-se de colocar a cidadania no centro e romper com a lógica tecnocrática que por tanto tempo moldou nossas cidades.

A dimensão política do placemaking é, portanto, inescapável. Ao imaginar futuros com base na participação, ele promove justiça espacial, ativa economias locais muitas vezes invisibilizadas, e fortalece o senso de pertencimento. Estudo da Brookings Institution mostra que regiões com projetos de placemaking chegam a registrar valorização imobiliária de até 20% e maior circulação de pessoas, estimulando o comércio e os vínculos de vizinhança. Mais do que desenho urbano, é uma ferramenta de cuidado com o território.

Redes como a PlacemakingX, que articulam iniciativas em diversos países, reforçam que esse não é um movimento isolado. Há uma onda global que reconhece no placemaking uma resposta possível à complexidade urbana contemporânea. Afinal, quando as pessoas participam da construção das cidades, os espaços ganham vida, e as ideias ganham forma. A cidade do futuro talvez ainda esteja longe. Mas com o placemaking, é possível começar a habitá-la agora, por ora em versão protótipo, mas com toda a potência de quem se recusa a esperar por soluções protas.

* Mariana Pontes é arquiteta, urbanista e diretora-presidente da Agência Recife para Inovação e Estratégia (ARIES)

*Via Assessoria